"> TRADIÇÕES EM PAUTA: “Mandioca que se bebe não serve para fazer pirão”. Por Genílson Nunes - Blog Neto Pimentel

segunda-feira, 15 de julho de 2019

TRADIÇÕES EM PAUTA: “Mandioca que se bebe não serve para fazer pirão”. Por Genílson Nunes


Será que realmente agora iremos medir os produtos da mandioca em litros? 

Para quem passou pelo sistema escolar e assimilou as propriedades da matéria, assim como as unidades de medidas, é sabido que litro faz referência a líquido e o quilo a elementos com massa no estado sólido. Em algumas partes do Maranhão, devido ao baixo grau de escolaridade, as pessoas, para comercializar suas mercadorias, muitas vezes sem instrumentos de medição adotaram seus próprios mecanismos de medida. Por exemplo, até hoje é comum os comerciantes venderem a farinha de puba, goma, camarão, entre outros, produtos, na lata de um litro precisamente na lata de óleo. Isso já faz parte da cultura local que, por sua vez, revela uma especificidade. Contudo, nesse ensaio pretendo apresentar reflexões a respeito desse produto em especial, audaciosamente, dialogando com as manifestações culturais, sobretudo, no que tange aos hábitos originários traduzidos pelo manejo e beneficiamento da mandioca.

Recentemente, tenho acompanhado, de perto, a euforia de pequenos produtores e lavradores de mandioca, assistidos pelas secretárias de agricultura e associações na Região do Baixo Parnaíba, principalmente nos municípios de Água Doce do Maranhão, Tutoia e São Bernardo. Esse fato dá-se devido a referida Região estar na mira de interesses da AMBEV, magnata indústria fabricante de cerveja. Com discurso envolvente, que segue a cartilha: Geração de emprego e desenvolvimento, elementos que vão de encontro às necessidades básicas da Região. 

Não há necessidade de um olhar analítico para perceber as estratégias que vão desde a ideia de valorização do local, ideia de pertencimento, de que o que é “nosso” é mais delicioso e deve ser valorizado. Estas, no contexto empresarial, não passam de falácias ou arapucas de marketing. Como a própria página da cerveja adverte que: 

“A Magnífica é uma cerveja saborosa, leve e refrescante, que foi criada para prestigiar as raízes do estado do Maranhão e brindar o orgulho de quem é nascido e criado na região. A marca tem como princípio fomentar o desenvolvimento da economia local do Maranhão com um modelo que desenvolve a cadeia produtiva, promove engajamento social e garante investimento local. A cerveja é feita a partir da mandioca plantada e colhida na região de Tabuleiro de São Bernardo, no interior do estado. A mandioca traz à cerveja refrescância e sabor, combina perfeitamente com o clima quente do Maranhão.” (...) Harmonização Caranguejos, saladas, mix de castanhas. 


Obviamente, entendo o entusiasmo eloquente dos lavradores, associações e gestores públicos, pois estamos na mira de uma mega indústria que atua mundialmente na produção bebidas. Sem reflexões protecionistas, isso representa o princípio do tão sonhado desenvolvimento regional ou seja a inserção na lógica de mercado, motivada pela presença da mandioca nossa de cada dia. No entanto, o cultivo da mandioca para fins, entende-se, como matéria prima industrial cervejeira, se não bem planejado e gestionado, poderá ocasionar um desastre na estrutura alimentar da Região, pois a mandioca tradicionalmente é ou era utilizada para fabricação de farinha, goma, beijus, entre outros produtos. 

A produção da mandioca destinada para abastecer os tanques de fermentação da Ambev poderá promover a elevação do preços dos produtos derivados da mandioca. Consequentemente, quem realmente vai sentir com essa mudança, serão os moradores locais de baixa renda, que não frequentam os bares ou os paredões de som para degustar a cerveja magnífica no estado líquido, no temperado de – 4°C, ou até mesmo, tirar fotos de um copo soado cheio de cerveja postando-as nas redes sociais como sinal de exaltação da diversão. 

O que é melhor? _ Sentir fome ou beber com moderação? Já que é para valorizar a cultura local, então que seja magnífica a farinha, goma, farinha de goma grolada, cuscuz de puba, bolos, beiju de goma, beiju síca, e até mesmo a Tiquira. Com efeito, essas combinam perfeitamente com o caranguejo, peixe assado, camarão, pirão escaldado de caldo de carne. Sem citar que fica bem na foto. 

Por fim, coube a mim essa inconveniente reflexão! 

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Sobre autor: Genilson Gonçalves Nunes é formado em Geografia pela UFRGS. Pós graduando: Especialização em Gestão e Educação Ambiental. Professor de Geografia – SEDUCMA. 

Contato: genilson1988@hotmail.com 



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